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A minha sala de aula 

A minha sala de aula

A minha sala de aula é parecida com muitas outras: tem mesas, cadeiras, quadro, livros, cadernos e muitos materiais. Ela tem 4 janelas grandes, por onde o sol entra para nos cumprimentar e aquecer; tem uma ventoinha no teto, que nos refresca no verão, e um aquecedor velhinho mas trabalhador, a quem os alunos carinhosamente apelidaram de latinhas.

A minha sala de aula é feita dos sonhos, das ansiedades, dos medos e das expetativas de dezanove crianças. É temperada com os seus defeitos e virtudes, pautada pelo seu potencial e movida pelas suas dificuldades.

A minha sala de aula é uma caixa mágica, com capacidades inimagináveis, que se transforma de acordo com as vontades e necessidades de quem a utiliza.

A minha sala de aula não é um espaço dentro da escola, não é um sítio, é muito mais do que isso.

A minha sala é uma efige à minha irmã. Apesar de termos pouca diferença de idades, a sala de aula sempre foi uma espécie de calabouço para ela, era um sítio onde era obrigada a estar de uma forma, a trabalhar de uma maneira e a pensar de um modo. Aprender era um sacrifício absurdo, do qual ela se demitia pois nada daquilo a interessava minimamente, porque não fazia sentido. Felizmente, a curiosidade de compreender o mundo que a rodeava era grande, então ela desenvolveu as suas estratégias para aprender: estudar a falar para o gravador, a brincar com bolas de ténis… Tudo coisas que se desviavam do conceito tradicional de estudo. As estratégias que a vi criar para conseguir chegar aos mesmos objetivos que os outros colegas, inspiraram-me a não aceitar dificuldades como falta de capacidade, nem obstáculos como impossibilidades e esta é uma das máximas que pauta a minha prática pedagógica.

Na minha sala de aula, há “fidget spinners”! Apesar de não estar comprovada a sua eficácia, permiti-lhe a entrada, sabendo que ia testar a minha paciência e capacidade de adaptação. Assim foi: nos primeiros dias, o zumbir dos braços do spinner a cortar o ar, enchiam a minha sala, testando a minha concentração e pondo à prova a minha capacidade de me apropriar de outras formas de estar. Com o passar do tempo, houve como que um momento de seleção natural. Os alunos que o traziam porque “é giro” mas não tinham real necessidade de compensar o contraste entre a quietude da sala e corrupio de pensamentos e sensações que encerram dentro de si, acabaram por abandonar o spinner para os momentos de recreio ou para os dias que se sentem mais agitados. Os outros integraram aquele zumbido e os movimentos para o fazer rodar na sua forma de estar, conseguindo estar mais tranquilos e concentrados nas suas tarefas. Posso dizer que foi uma prova superada e bem sucedida.

A minha sala de aula 3

Na minha sala de aula, temos cadeiras mas podemos sentar-nos em bolas suíças! É essencial saber estar corretamente sentado e gerir o desconforto que daí pode advir mas, de uma forma geral, ninguém está sentado e quieto por muito tempo. Com base nesta premissa, após ler alguns artigos sobre o assunto e perceber os benefícios que outros colegas encontraram na sua utilização, decidi experimentar. Comecei por sugerir aos pais, que se queixavam do “bicho carpinteiro” que possuía os filhos durante os momentos de estudo, que as utilizassem em casa, durante os tempo de estudo. Fui ouvindo falar do sucesso da ideia até que me decidi a recebê-las na sala. Mais uma vez, verifiquei um comportamento bastante interessante: os alunos gerem os tempos de conforto/desconforto sozinhos, alternando entre sentar-se na cadeira ou na bola e estão bastante mais focados naquilo que estão a fazer. Até a sua postura melhorou. “Algumas crianças precisam mais de movimento que outras. (…) É aqui que surgem as bolas de estabilidade: em resposta à sua instabilidade e para se manter equilibrado sentado nela, o corpo instintivamente – e continuamente – trabalha os músculos do core. É necessário um movimento subtil constante para se manterem sentados na bola. É esse movimento, embora ligeiro, que os ajuda a concentrar.” (Karen Lynch)

A minha sala de aula

Na minha sala de aula, há tempo livre para estudar de acordo com as necessidades e dificuldades de cada um. Bebendo da tradição do movimento da escola moderna, criei e compilei materiais autocorretivos que permitissem aos alunos o contacto e reconhecimento do seu próprio erro. A princípio esta atividade requeria supervisão apertada pois maioritariamente os alunos assinalavam os seus erros, sem grande preocupação em corrigi-los. Esta tendência foi sendo contrariada com a oportunidade de resolver os exercícios corretamente no quadro. A necessidade concreta de saber e de explicar, estimulou a curiosidade e a vontade de fazer melhor. Esta postura deu lugar a uma autoavaliação crítica do trabalho realizado e à autonomia que nasce da consciência do seu próprio processo de aprendizagem.

A minha sala de aula 2

Na minha sala de aula, há uma rede social só nossa! Num mundo onde a tecnologia faz parte dos mais simples gestos da nossa vida, não faz sentido forçar a escola a ser desviante. Se o fizermos, corremos o erro de ter práticas desfasadas da realidade dos nossos alunos e se eles não se identificam com o contexto, o processo de aprendizagem torna-se mais penoso. Neste aspeto, a escola tem um papel privilegiado e essencial pois cabe-lhe ensinar as novas gerações a fazer um uso consciente e regrado destes recursos. Ora, na minha sala de aula usamos a aplicação “seesaw”: uma plataforma que nos permite trabalhar e ampliar as nossas aprendizagens, partilhando-as com os nossos colegas. Aprendemos a tirar o máximo partido das funções de gravação e captura de som e imagem e também de desenho e edição de imagens. Partilhamos coisas que aprendemos fora da escola e também os nossos interesses. Descobrimos que podemos comentar as publicações dos outros e percebemos o peso e a importância que têm essas palavras neles. Numa plataforma fechada, descobrimos o alcance que tem uma publicação e as reações que provoca. Em suma, preparamo-nos para o dia em que nos confrontaremos com o mundo social online, na esperança de formar “utilizadores” e não “utilizados”.

Na minha sala de aula há tempos de descanso! Por vezes, todos precisamos de parar um instante e respirar fundo, reencontrar a nossa linha de pensamento e prosseguir. As crianças também necessitam desses tempos, dessas pausas e, por vezes, precisam delas em alturas inconvenientes pois não coincidem com o horário. Na minha sala de aula, todos têm o direito de parar cinco minutos para se reencontrar e, nesse momento, podem escolher se querem sair da sala; folhear um livro ou simplesmente pousar a cabeça e ficar sossegado. A liberdade de o poder fazer, reduziu significativamente as vontades súbitas de ir à casa de banho e mesmo a necessidade de fazer uma pausa. Saber que podemos parar por um pouco deixa-nos levar a ansiedade de ser bem sucedidos com maior tranquilidade.

A minha sala de aula 4

A minha sala de aula não é minha. Ela pertence a todos os que cá estão, aos que por cá passaram e aos que virão. Ela hoje é assim mas amanhã vai ser diferente. Vou fazer escolhas que não resultam e vou ver boas praticas deixar de ter o efeito desejado mas não vai fazer mal. Chamo-lhe minha porque ponho tudo de mim nela e porque todos os dias ela me inspira e desafia a fazer mais, a descobrir mais, a almejar mais e obriga-me a estar de mãos dadas com ela numa espécie de metamorfose infindável.

Nota: Agradeço à Direção e a toda a equipa da Academia de Música e Belas-Artes Luísa Todi o voto de confiança e o apoio e aos pais de todos os meus alunos, que embarcam comigo nesta jornada. Para práticas diferentes é necessária uma escola diferente e a Academia Luísa Todi distingue-se pela sua capacidade de se reinventar de acordo com as necessidades da sua comunidade.

A minha sala de aula 5

Texto de Mónica Azevedo Santos

 

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